TOCA A PESCAR
7.9.09

 

A Costa Vicentina é talvez ainda um dos últimos paraísos para a pesca em Portugal. Só de se ouvir este nome associamo-lo imediatamente aos fabulosos pesqueiros de Sagres e da Carrapateira, trazendo-nos à memória as histórias de grandes pescarias de sargos e robalos de grande porte. Infelizmente também nos lembramos logo das histórias de acidentes sofridos por pescadores, quase sempre, fatais.De facto, ambas as lembranças são reais, é um local onde ainda se fazem grandes pescarias (embora cada vez menos) e também é verdade que todos os anos aquelas falésias roubam a vida a cerca de uma dezena de pescadores desportivos.
No entanto, esse facto parece não incomodar a maioria dos que aqui se dedicam à pesca, vindos de outras zonas do Algarve e até, de outras áreas do País. Espalhados pelas falésias, inúmeros pescadores prosseguem a sua actividade indiferentes aos riscos que aí espreitam.
A altura das falésias, a profundidade do mar e a força do vento fazem com que nos sintamos bem pequeninos, face à força dos elementos. É aqui, que a terra acaba e o mar começa.


As paredes do farol do Cabo de S. Vicente, um dos meus pesqueiros de eleição, aquela parede tem 65 m de altura. Notam alguma diferença nas fotos?

Como já perceberam pelo que acima foi dito o local não é para brincadeiras por isso, toca a arranjar material a condizer, pois não vamos pescar em molhes ou pontões a 2 metros da água.
A cana – Telescópica, com pelo menos 5 m de comprimento e acção superior a 100 grs.;
O carreto – Forte, que levante sem problema um peixe de 1 kg a 50 m de altura, deve ter capacidade na bobine para, pelo menos, 250 m de monofilamento de 0,40 mm. Grande parte dos carretos que por aqui se vêm são feitos artesanalmente tentando imitar o mítico carreto Rocha (O carreto Rocha era fabricado por um operário da Lisnave. Aquilo pesava mais de 1 kg mas levantava peixes de 3 kg sem problemas e, nunca avariava).
As bóias – De correr – A mais habitual é o clássico pião em tamanho XXL, que suporte chumbada furada de 50 a 80 grs., claro que em pesqueiros mais baixos, menos de 30 m, reduz-se o tamanho do pião de forma a que fique calibrado com chumbada furada de 20 a 40 grs., por cima da bóia leva uma pequena missanga que não lhe permite ultrapassar o nó de travamento.
Fixa – Bóias torneadas ou talhadas em madeira de diversos tamanhos, estas não necessitam de ser calibradas, trabalham deitadas. Também se pode utilizar o clássico pião, neste caso, este é apenas calibrado na madre com a chumbada e fixo sem folga com o nó de travamento/batente a impedir que a bóia corra.


As bóias da “guerra”

A montagem – Por aqui ninguém pesca directo, utiliza-se sempre estralho para a montagem ficando a bóia e chumbada (se usarmos a bóia de pião) fixas na madre. A madre normalmente é em monofilamento 0,40 ou 0,45 mm, sendo o estralho, no mínimo do comprimento da cana, normalmente em monofilamento 0,22 ou 0,25 mm de boa qualidade. Não se usam chumbos fendidos no estralho, apenas uma chumbadinha de correr tipo olivette de 3 a 5 ou mesmo 8 grs. para ajudar a afundar a iscada rapidamente.
No caso de bóias de correr o estralho tem os já citados 5 m, no entanto, consoante a profundidade dos pesqueiros, chega-se a pescar a profundidades de 15 a 20 m, vejam onde é que está o nó de travamento/batente…
No caso das bóias fixas, as que eu prefiro, o tamanho do estralho varia entre os 5 e os 10 m. Estas bóias têm um trabalhar muito mais natural e muito maior sensibilidade ao “toque” pois vê-se o afundar/empinar muito mais facilmente, mesmo com vento. Uma bóia de correr com um pouco de vento forma um “seio” no fio da madre e ao tentarmos esticá-la, para ter pouca folga, “obrigamos” a que a bóia se afaste do nó de travamento/batente o que a torna muito menos sensível aos “toques”.
Um dos espectáculos mais bonitos que se pode apreciar consiste em assistir à retirada de um bom exemplar, com mais de 1 kg, com bóia fixa e estralho de 8/10 m. A cana toda vergada e o peixe pendurado a kms da borda da falésia, inicia-se então a “dança” para a retirada do peixe que consiste em balanceá-lo para a esquerda, depois para a direita até que este movimento pendular permita a “chicotada” final que obriga o peixe a ultrapassar a falésia. Como depreenderão trata-se de uma técnica cujo domínio não é fácil e que nos custa alguns peixes até que a dominemos por completo.


Sargo 1,7 Kg capturado nas paredes do Farol do Cabo de S. Vicente.

Os iscos – Os iscos de eleição para a pesca à bóia reduzem-se apenas a 3, mas estes são quase obrigatórios: A sardinha para engodar e iscar com o filete do rabo ou o lombo, a gamba/camarão da costa fresca ou congelada e o célebre ralo, este último é realmente o tira-teimas com águas mais claras


Iscada de sardinha, gamba e ralo.
 

Os apetrechos – Porque a zona não é para brincadeiras, convém que nos equipemos a condizer, roupa confortável e folgada de forma a permitir liberdade de movimentos, calçado (muito importante) que “agarre” facilmente a rocha, nada de sapatilhas, botas de campino com sola macia, daquelas do mercado.
Para que tenhamos ampla liberdade de movimentos, já que muitas das descidas são “manhosas” usa-se o kit “mãos livres”. O ceirão da Vicentina que se coloca às costas tipo mochila e que leva todo o material de que necessitamos, a mochila com o material de pesca, o isco, o pisador/migador de engodo, a cana já com o carreto montado (para não deslizar para um ou outro lado) e o balde com o engodo. Na parte posterior do ceirão coloca-se o cesto/rabeca que se prende com um mosquetão ou corda.


Kit mãos livres para pesca na Vicentina

Os pesqueiros – Aqui é que a porca torce o rabo como se diria em gíria popular, vamos ter que distinguir 3 tipos de pescadores:

 1.     Os que vão à pesca passar um bocado bem passado em contacto com a natureza mas que não descuram o seu conforto e procuram pesqueiros acessíveis e abrigados;

 2.     Os que querem apanhar peixe não se importando com as condições climatéricas adversas nem com o seu conforto pessoal, apenas procurando arranjar um pesqueiro que dê peixe, mas nunca ultrapassando os limites do razoável pois não há peixe que valha uma vida.

 3.     Temos ainda o 3.º tipo de pescadores, os “loucos” das falésias, que munidos de cordas e carregados com todo o equipamento desafiam as falésias e pescam em locais onde mal cabe um balde e onde o mínimo descuido pode ser desastroso.


Á pesca em Sagres.

Enfim, a conversa já vai longa e aqui o pescador, tipo 2, tem que ir preparar o material para mais uma jornada de pesca.
Espero ter contribuído para que percebam um pouco melhor o que é a pesca por estas agrestes paragens.

 

in: pescaemportugal.com

link do postPor tocaapescar, às 09:53  Comenta
 O que é?

De António a 24 de Outubro de 2011 às 17:12
O carreto Rocha era fabricado pelo meu amigo Manuel Rocha morador em Belem na Rua do Embeixador e com oficina nas terras do desembargador, infelizmento já desparecido deste mundo. Nunca foi funcionário da Lisnave.

De VIRGILIO.CURTO a 20 de Janeiro de 2014 às 13:46
O meu amigo Rocha trabalhava na fundição de oeiras

De António a 20 de Janeiro de 2014 às 13:49
nunca trabalhou na fundição de Oeiras.

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